O Homem e os Lobos

Atualizado: Jun 9





Havia uma rica vila, repleta de casas suntuosas de madeira, famílias com suas despensas cheias de queijos, salames, linguiças e compotas. As estações traziam, ano após ano, frutas típicas e plantações fartas. As famílias conheciam-se e reuniam-se para celebrar a chegada das estações, onde agradeciam pelo recebido e pediam por mais, sempre mais. O rio, sonoro e acolhedor, ofertava peixes para aqueles que não podiam se alimentar dos animais de grande porte.

Allan, certa feita, saiu do casebre onde morava com os pais e nove irmãos a fim de buscar lenha, pois o caldeirão precisaria de mais do que tinham para cozinhar o ensopado. Quando voltou, estranhou o silêncio e pensara que, talvez, os irmãos menores pudessem estar brincando próximo ao riacho. Olhou, da mesma forma, em volta do pessegueiro, pois era época de colheita e suas irmãs podiam estar por ali, mas não estavam. Seguiu para casa intrigado. Ao chegar lá, a porta estava entreaberta, alguns pertences estavam caídos pelo chão e a água estava a ferver no caldeirão, contudo, não havia ninguém. Voltou para fora e começou a chamar, mas ninguém respondeu. Afastou-se da casa, foi até o riacho e depois ao lugar onde seu pai plantava; nada, ninguém. Voltou para a casa e resolveu adiantar a comida, pois supôs que podiam ter saído por alguma razão e que, com certeza, voltariam com fome. Horas se passaram e nada. Nada! E, depois de um intenso dia de trabalho, o sono acabou por arrebatar-lhe. Acordou, tarde da noite, com barulhos lá fora, o som de alguém aproximando-se e, como a noite estava clara, foi até a janela, abriu a porta, mas não viu nada. E, assim foi, por uma sucessão de dias e noites.

Após certo tempo, sem saber ao certo quanto, ouviu gritos e seguiu-os sem pensar duas vezes, até que, de repente, depara-se com olhos assustados, apavorados. Saiu correndo sem olhar para trás e, depois de correr muito, chegou até uma clareira. Ofegante, olhou para a lua, olhou para a água e, o que ele vê o assusta: “não compreendo!” “Não!’ “Não!” Voltou, pelo mesmo caminho de onde havia vindo e, depara-se com muitos como ele. Eram muitos! Ele passava entre eles, mas não mais achou aquele rosto, aqueles olhos. Entre confuso e amedrontado, Allan volta até a clareira, olha novamente para a água e vê-se com calma: “estou lobo, mas sou homem” pensa ele. Olha para sua mão e vê patas, garras e pelos: “minha nossa!” Retorna para sua casa, estava tudo empoeirado, ninguém voltou para lá. Pensa novamente em sua família, fecha os olhos e lembra-se de sua mãe. Anda devagarinho pela sala, encontra o cachimbo de seu pai sobre a mesa em frente a lareira e lembra-se dele. Os irmãos, um a um, lhe vêm à mente.

Voltou para a mata, mais e mais lobos como ele, de várias cores e tamanhos. Ele não se lembrava de ter visto estes animais tão perto de homens. Não por ali. A fome vinha e, com ela, o esquecimento e a confusão. Numa noite, enquanto bebia água, ouviu os passos calmos de seu pai, mas quando virou-se, viu outro lobo, havia nele alguns pelos brancos, como havia entre os cabelos de seu pai, o lobo olhou-o, abaixou-se e tomou água. Depois de beber, deitou-se com sua cabeça repousando sobre as patas dianteiras, deu um profundo suspiro, e contemplou a lua. Allan olhou adiante e viu outros dois lobos mais jovens brincando, rolando no chão, correndo um atrás do outro, tudo era motivo de graça. Estes, lhe remeteu a seus irmãos mais novos. Começou a olhar detalhadamente para cada um deles e pequenas características lhe eram reveladas. Reconhecia, dia após dia, naquela enorme alcateia, pessoas queridas, pessoas de seu convívio.

Certo dia, acorda no susto e, quando se deu por conta, já estava correndo de homens montados em cavalos velozes que o perseguiam, gritavam e atiravam. Ele só corria e, quando podia, olhava rapidamente para trás e via lobos caindo, atingido pelos tiros. Seguiu correndo, até chegar ao topo da montanha. Ficou dias entre fome, sede, aturdimento e confusão, e, quando sentiu-se seguro para descer, em uma noite mais clara, ouviu gritos novamente. Foi em direção a eles e, enquanto furtivamente se aproximava, presenciou, através de uma janela, aqueles mesmos homens junto de uma família. Eram maioria, havia pelo menos um deles para cada membro daquela família, e, era a família quem gritava, enquanto os homens, estes riam. Os lobos, todos escondidos ali por perto, não ousavam aproximar-se, e, conforme os gritos paravam, voltavam para o escuro.

Allan resolveu, naquela noite, que não mais iria entregar-se ao escuro, a sede, a fome e ao aturdimento. Ele queria compreender o que estava ocorrendo e, passou a observar e aguardar em busca dos fatos. Quando a fome vinha, dilacerante, alimentava-se de vermes e insetos. Era tão ruim e estranho, como homem, comê-los, mas inimaginável como lobo. Ainda assim, forçou-se, insistiu e, aos poucos, a repulsa transformou-se em possibilidade. E, com a chegada da próxima lua cheia, pôde ver, com horror e espanto, o que ocorria: a cada lua clara, os lobos saiam do escuro e iam até determinadas casas, fazendo ruídos e atraindo pessoas para fora. Estas, eram atacadas, suas vísceras, comidas, e, suas carcaças carregadas pelos mais fortes até a sombra densa. Lá, elas ficavam até a próxima lua de luz, quando renasciam como lobos. Muitas e muitas casas já haviam sido atacadas. Já eram dezenas e dezenas de lobos, poucas centenas deles, e, os homens, aqueles que alcoolizados violavam as famílias em torpor, vieram para descobrir o que estava acontecendo, onde, revestidos da autoridade humana, espalhavam medo, dor e morte pelos lugares em que passavam. “Agora vejo! Agora sei! Mas o que posso fazer?” Pensou Allan. “Estes homens saqueavam, violavam e matavam como se fossem animais. Os lobos matavam por terem perdido sua humanidade, mas estes homens renunciavam a ela, eles haviam tornado-se bestas em corpos de homens.”